quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Engana-se! Em Gana se...

Incrível como uma experiência desconhecida de início pode resultar em maravilhosas vivências. Não digo maravilhoso no sentido de que tudo foi perfeito, mas no sentido de que tudo me serviu de crescimento – aquele velho crescimento pessoal e profissional que você espera ao partir para um intercâmbio.

“Meus pêsames”, “boa sorte”, “você é corajosa”. Desci ao solo ganense no dia 21 de janeiro com a certeza de que realmente essas falas faziam sentido: com toda minha bagagem estava eu sozinha em frente ao aeroporto em plena seis horas da manhã à espera do meu anfitrião da Aiesec CUC (Central University College). Apesar de toda receptividade de desconhecidos me oferecendo celular para efetuar ligações, mãos para carregar minhas bagagens, aquele ambiente tomado pela poeira e pelo pouco movimento me inspirava desconfiança. Assim que meu anfitrião chegou, fiquei mais tranquila: um ganense “conhecido” – mesmo que apenas por e-mails – e com quem eu poderia falar sem sentir vergonha ou receio – apesar do meu inglês "cru" de quem estudou anos, mas raramente pôs em prática.


Dentro do táxi era óbvia a minha curiosidade em perguntar sobre tudo que avistava pela janela, inclusive dos vários habitantes locais que se aproximavam dela. Confesso que não compreendi muita coisa pelo mix de euforia e adaptação que eu estava enfrentando, mas dali em diante caíra a ficha de que eu estava longe, muito longe da casa: nesse mesmo dia, conheci a sede da Aiesec CUC, outros intercambistas e membros que viviam na casa, participei de reunião sobre o projeto social com o qual todos estariam envolvidos (exceto eu, intercambista profissional), conheci a empresa onde trabalharia, tive minha primeira refeição (e típica), por fim, mudei de vez aonde ficaria até o dia 20 de julho – data do meu primeiro vôo de volta à casa (sim, já possuía minhas passagens compradas desde que fui para lá). E aos poucos a opinião superficial que me transmitiram antes de aterrissar em Gana foi se moldando, criando raízes mais sólidas.


Como sabia que eram muitas as experiências que viveria por lá, decidi que recomeçaria meu blog e ao pé da letra: o dia-a-dia de quem viajava pela primeira vez para fora de seu país, recém-formada, falando uma língua diferente, convivendo numa sociedade ainda mais diferente.


De início realmente minha ideia deu certo e semanalmente postava meu diário com direito a fotos, comentários, a matar saudade de minha lingua materna e manter contato com os meus leitores – fossem grandes amigos, parentes, namorado, fossem desconhecidos que por ventura navegassem por lá. Mas com o tempo, minhas oito horas diárias de trabalho, mais três a quatro horas de tráfego, mais horas namorando à distância, além das saídas para esquecer dos desafios da rotina africana, me fizeram abandonar aos poucos o projeto a que me propus.


Fiquei chateada num primeiro momento, amigos me cobraram a atualização num segundo, mas percebi que valeria mais a pena seguir minha vida ocupada, aproveitando cada minuto, do que tentar traduzi-la em posts ocupando horas da minha semana que pareciam cada vez menores – talvez boa parte do erro foi querer falar de cada detalhe, me empolgar em cada post, pois desta maneira somente os mais próximos teriam tempo e paciência para ler meu blog.


O que eu vivi ali afinal? Engana-se quem acredita que foram apenas mazelas. Engana-se quem acredita que foi apenas diversão. Engana-se quem acredita que vivi uma experiência profissional perfeita. Em Gana eu vivi cada segundo algo estranhamente bom, digo estranho porque me sentia feliz ao mesmo tempo que dava vontade de gritar de raiva, me sentia realizada ao mesmo tempo que minha vontade era pegar o vôo de volta para o Brasil.


Foram falta de água, falta de luz, idas e vindas no meio da rua com raro asfalto, constantes buracos, sem calçada e esgoto a céu aberto. Foram sacolas plásticas pretas e sachês vazios de água espalhados em qualquer lugar. Foram carros mal conservados, quebrando [ou quase] no meio da rua, foram transportes públicos extremamente baratos, porém pouco seguros e lotados, além de [quase] total desrespeito das regras de trânsito. Foram ambulantes dentre os carros vendendo de tudo um pouco, foram também aqueles ambulantes com “lojas” na beira das ruas. Foram cachorros e gatos por todo lado? Bodes.



Lá ainda conheci fastfood que era devagar, o “está vindo” que nunca chega, os itens do cardápio que os estabelecimentos nunca tinham, os itens que tinham mas não correspondiam com o descrito no cardápio, o um pesewa (o equivalente a nosso um centavo) que nunca é aceito, o lavar a louça em água parada e o cozinhar de uma maneira que você nem procurava saber como.



Queijo, leite e carne vermelha eram itens de luxo para um reles intercambista, assim como uma refeição confiável – ainda bem que meu organismo é bastante resistente. Acabei me rendendo a restaurantes locais – munidos de no máximo sete opções de pratos (arroz branco/frito/jollof com salada de maionese, banku, fufu, omo tuo, kenkey, red red, watchie), todos com tempero ou molhos apimentados (em maior ou menor grau) e oleosos, com três opções da carne (peixe frito, frango frito ou carne de bode) – e uma vez ou outra aos restaurantes melhores ou às refeições preparadas em casa entre amigos estrangeiros (uma espécie de luxo coletivo). Para quem esperava voltar magra da África, acabei emagrecendo de início até me acostumar com a rotina alimentar de lá, depois engordei com a descoberta de refeições melhores e não tão caras, voltando a meu peso.

A qualidade inferior da água, o sol forte, muita poeira e o clima abafado transformaram minha pele e meu cabelo num caos – regra para as garotas brasileiras, já que cheguei a conhecer uma mexicana que achou a qualidade da água melhor por lá. Essa situação levou a um desleixo de quem havia se acostumado a ser vaidosa: maquiagem era feita só em situações tensas (leia-se: olheira e espinha) ou ocasiões especiais; posso contar nos dedos quantas vezes fiz minhas unhas; jamais tratei meu cabelo por medo do resultado (os cabeleireiros de lá estão mais acostumados a lidar com apliques e penteados do que com cortes e tratamentos).


Este quadro junto aos altos e baixos no trabalho, fizeram da minha “#AfricanLife” uma verdadeira busca por lazer (o que pode soar um tanto quanto egoísta diante da imensa pobreza a que me deparava nas ruas), sem deixar de lado o mundo virtual que tanto colaborou para o meu namoro à distância dar certo (mesmo com a oscilante internet ganense).


Conheci pessoas de diferentes faixas etárias, de Gana, diversas outras nacionalidades e até mesmo brasileiros. Visitei lugares maravilhosos, que jamais pensei existir por lá. Pela boa localização da casa onde morei, saí muito (praticamente quatro dias por semana), quando pude beber, dançar, cantar (inclusive acredito que fui a que mais cantou dentre os estrangeiros amigos) e rir das nossas histórias dentro e fora de Gana. Foi assim que, ao atingir meus cinco meses por lá, percebi que, mesmo louca para voltar para casa, me despedir seria bastante difícil.


Ao fazer meu primeiro e último discurso em terras africanas, completando quase seis meses após minha chegada e um dia antes de partir, foi impossível não chorar. Engraçado como um país pode superar suas expectativas e fazer de você uma pessoa melhor.


A saudade antecipada de lá, porém, não me fez querer voltar quando pisei em solo brasileiro: aqui sempre estiveram aqueles que me acompanharam de longe “na alegria e na tristeza” e que jamais me deixaram desistir daquela que é e continuará sendo uma das experiências mais especiais de minha vida. Abraços e beijos, língua portuguesa na ponta da língua e viagens àquelas cidades que nunca saíram do meu pensamento: Socorro (com um pulo em Bragança Paulista e Serra Negra), Lavras, Juiz de Fora e Petrópolis. Dentre distribuição de mais abraços e beijos, lembrancinhas e histórias para contar, namorado, família e amigos me encheram de carinho, com a receptividade que só o brasileiro tem – não é à toa que todos os estrangeiros que conheci são doidos para vir aqui.


Mais de um mês depois da minha volta, sinto uma alegria imensa, uma saudade inexplicável, junto a uma sensação ruim do “E agora?” que meus colegas de faculdade tanto falaram logo após a formatura. Ainda assim não me arrependo desses seis meses longe de casa e não desanimo diante do desafio que me espera: uma vez “africana”, obstáculos que seriam intransponíveis são “fichinha”. Em Gana se aprende e engana-se quem negar.

3 comentários:

pedr0_hmsg disse...

Parabéns pelo post! ficou muito bom! mto bom msm! ;]

Ps: Parabéns dnovo pela atitude de enfrentar um desafio desses! (eu sei dos momentos "tensos" nesses 6 meses

S2

Rodrigo Pedrotti disse...

Caramba Jaque! Que post incrível! Parabéns mesmo!

Vc sabe, mas vale ressaltar o orgulho que eu tenho de ser seu amigo e poder ter acompanhado de perto (ou de longe.. rs) essa sua aventura. Você sempre foi um exemplo pra gnt e isso tudo só te fez ficar melhor, se é que isso era possível!

E que bom que vc está de volta! Essa foto aí no bar diz tudo! Sua volta foi mais que esperada e agora a gente não deixa vc se afastar mais!

bjao!

cafeblase disse...

tenho mto orgulho (e mta saudade!) de vc, japonesa! te amo!