Sem pedir licença, conheci Maria dos Anjos. Aposentada da companhia telefônica, segundo ela mesma.
Perguntou-me se tinha descendência alemã ou italiana. Japonesa, respondi.
Mora aqui perto? Como se fala seu sobrenome? Sua mãe é daqui? E seu pai?
Não sou daqui, respondi. Faço Jornalismo na UF.
Jornalismo é muito bom. Quando você for fazer matéria para a TV, moro ali. E com a cabeça mostrou a direção de seu prédio.
Ali, na avenida mais conhecida da cidade, perto do ponto de ônibus.
Ali, na avenida mais conhecida da cidade, perto do ponto de ônibus.Usava chinelos, pois seus pés já não eram os mesmos depois de uma queda. Queda em um dia em que foi a um dos mais belos espaços culturais da cidade. Ironia? Destino? Descuido.
Apartamento 7, frisou. Você lembra meu nome? Maria dos Anjos.
Mas o que você gostaria de falar à TV?, perguntei.
Falar daqui. Moro há 25 anos ali e sei tudo o que acontece nesse ponto de ônibus. É uma falta de respeito.
Silêncio.
Você mora com quem? Amigas, respondi. O que você fez no cabelo? Tá bonito.
Você mora com quem? Amigas, respondi. O que você fez no cabelo? Tá bonito.
Escova definitiva. Se eu lavar, continua assim, expliquei. Definitiva, repetiu.
E repetiu mais uma ou duas vezes o número de seu apartamento.
Procuro estudantes para irem morar ali, por enquanto estou sozinha. Melhor sozinha, concluiu para si mesma.
Após mais uma vez falar onde morava, pediu para não esquecer o número de seu apartamento.
7. Se esquecesse, poderia perguntar por ela na portaria. Maria dos Anjos.
Atenta à conversa, uma moça perguntou a ela: Tem filhos?
Não. Mas fui uma boa filha, disse. Também não casei. Nunca tive ninguém, completou.
Não perdeu nada, complementou a mulher.
O ônibus de Maria dos Anjos chegou: despediu-se e entrou.
Perguntei se tinha filhos, porque todo dia ela vai e vem nesses ônibus. Achei que tinha filhos para visitar, justificou a moça.
Balancei a cabeça, preocupada com o meu ônibus. Finalmente ele chegou. Entrei.
Ali, onde todo dia passa, é onde começa e termina as idas e vindas de Maria dos Anjos pela cidade.
(...)
Não tenho filhos e também não deixo de ir e vir nesses ônibus.
Sou solteira e me considero uma boa filha. Sozinha?! Pode ser. Não sei.
Quedas? Já tive. Um dia, talvez, fale na TV.
É... acho que sou um pouco de Maria dos Anjos.. Prazer!
4 comentários:
ai, que história bonita! dá vontade de sair conhecendo mais as pessoas que não conversamos normalmente, cada uma delas guarda histórias de onde podemos aprender tantas coisas...
bonito mesmo, jaque!
Adorei jaque!
No msm ponto, no msm lugar, ontem avistei Maria dos Anjos.
Estava lá, sentada, vendo as pessoas irem e virem.
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